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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Racionalismo IV

 

A astronomia e a geometrização do espaço

A teoria geocêntrica encontra-se nas obras de Aristóteles, posteriormente completadas por Ptolomeu (séc. II). Essa concepção, que perdurou durante toda a Antiguidade e a Idade Média, descreve um Universo finito, esférico, hierarquizado. O geocentrismo era de certo modo confirmado pelo senso comum: percebemos que a Terra é imóvel e que o Sol gira à sua volta. No próprio texto bíblico lê-se uma passagem em que Deus fez parar o Sol para que o povo eleito continuasse a luta enquanto ainda houvesse luz, o que sugere o Sol em movimento e a Terra fixa.

No século XVI, o monge Nicolau Copérnico (1473--1543) publicou Das revoluções dos corpos celestes, obra em que expõe o heliocentrismo. A obra foi praticamente ignorada até o início do século XVII, quando as teorias nela propostas ressurgiram com Galileu e Kepler. A luneta proporcionou a Galileu descobertas valiosas: para além das estrelas fixas, haveria ainda infindáveis mundos; a superfície da Lua é rugosa e irregular; o Sol tem manchas; e em torno de Júpiter existem quatro luas!

Como isso seria possível? Vimos que para os aristotélicos o Universo é finito, a Lua e o Sol são compostos de uma substância incorruptível e perfeita e Júpiter, engastado em uma esfera de cristal, não poderia ter luas que a perfurassem. Os fenômenos da física e da astronomia, antes explicados de acordo com as diferenças de natureza dos corpos perfeitos e imperfeitos, tomam-se homogêneos, já que não há mais como reconhecer a incorruptibilidade do mundo supralunar: desfaz-se, portanto, a diferença entre Terra e Céus.

Além disso, à consciência medieval de um "mundo fechado'' é contraposta a concepção moderna do "Universo infinito''. Essas concepções representaram um grande abalo, pois sempre houve uma mística do lugar. Para os antigos havia lugares privilegiados: Hades(Infernos); Olimpo (lugar dos deuses); o espaço sagrado do templo; o espaço público da ágora (praça pública); o gineceu (lugar da mulher).

O filósofo contemporâneo Alexandre Koyré, ao explicar as grandes mudanças que ocorreram no século XVII, diz que elas pareciam ser redutíveis a duas ações fundamentais e estreitamente relacionadas entre si, que ele caracterizou como a destruição do cosmo e a geometrização do espaço. Isso significa que o espaço heterogêneo dos lugares naturais tornou-se homogêneo e, despojado das qualidades, passou a ser quantitativo e, portanto, mensurável.

Podemos dizer que houve uma "democratização" dos espaços, pois todos tornam-se equivalentes, nenhum é superior ao outro. Negada a diferença entre a qualidade dos espaços celestes e terrestres, é possível admitir que as leis da física aplicam-se igualmente a todos os corpos do Universo.

 

(ARANHA, Maria Lúcia de A. e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução a filosofia. 4. ed. São Paulo : Moderna, 2009. p. 367)

Racionalismo III - Galileu Galilei


Galileu e as duas novas ciências


Em 1638, à revelia da Inquisição, foi publicada na Holanda a obra Discursos e demonstrações matemáticas sobre duas novas ciências, quando seu autor, Galileu, já cego, ainda se encontrava em prisão domiciliar. A partir desse último e importante trabalho, em que relaciona a hipótese capricorniana às leis da mecânica, ligando a ciência da astronomia à física, pode-se dizer que nascia a física moderna e uma nova concepção de astronomia.

A nova física

A produção teórica e experimental de Galileu só foi possível porque ele dispunha em sua oficina de recursos como plano inclinado, termômetro, luneta e relógio de água. Embora ainda fossem engenhocas um tanto primitivas, foram suficientes para mostrar o valor da observação, o que lhe permitiu abandonar a ciência especulativa e caminhar em direção à construção de uma ciência ativa.

Em oposição ao discurso formal, Galileu solicita o testemunho dos sentidos e o auxílio da técnica. Valoriza os experimentos e, ao contrário da física antiga, que buscava explicar o "porquê" do fenômeno pelas qualidades inerentes aos corpos, Galileu se interessa pelo "como", o que supõe a descrição quantitativa do fenômeno.

Por meio dessa descrição, distingue as qualidades secundárias (cor, odor, sabor) das qualidades primárias (forma, figura, número e movimento). As secundárias são subjetivas, enquanto as primárias são objetivas e passíveis de tratamento matemático, o que permite a Galileu assimilar o espaço físico ao espaço geométrico de Euclides.

Assim ele explica: 

A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que continuamente se abre perante nossos olhos (isto é, o Universo), que não se pode compreender antes de entender a língua e conhecer os caracteres com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências e outras figuras geométricas, sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras: sem eles nós vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto.

Quanto ao movimento, Galileu recusa a teoria aristotélica que distingue o movimento qualitativo do movimento quantitativo para considerar toda mudança quantitativa. Com isso, estabelece um corte entre as duas leituras do mundo, pois, onde Aristóteles via qualidades (corpos pesados ou leves), Galileu descobre relações e proporções.

Quando estuda Arquimedes e vê que as leis do equilfbrio dos corpos flutuantes são verdadeiras, destrói a teoria da "gravidade" e "leveza'' dos corpos. "Subir" e "descer" não atestam mais a ordem imutável do mundo, a essência escondida das coisas. Por exemplo: onde está a "gravidade" quando mergulhamos a madeira na água, uma vez que ela se torna "leve", a ponto de só poder mover-se para
baixo se for forçada? 

Ao explicar "como'' os corpos caem (e não "porque" caem), Galileu descobre a relação entre o tempo que um corpo leva para percorrer o plano inclinado e o espaço percorrido. Repetidas experiências confirmam as relações constantes e necessárias, donde decorre a lei da queda dos corpos, traduzida numa forma geométrica. Não estamos, porém, diante de uma ciência que parte apenas de dados empíricos. 

O procedimento de Galileu não é sempre indutivo, pois nem todas as vezes parte dos fatos para as leis. Em muitas ocasiões realiza "experiências mentais", pelas quais imagina situações impossíveis de verificar empiricamente e tira conclusões desses raciocínios. O que dá validade científica aos processos intelectuais é que os resultados devem ser submetidos à comprovação. 

Uma grande descoberta alcançada com esse método foi o princípio da inércia, segundo o qual qualquer objeto não submetido à ação de uma força permanece indefinidamente em repouso ou
em movimento uniforme. Ora, isso não acontece de jato, pois não é levado em conta o atrito, mas pode ser pensado como se ocorresse. 

Galileu é um dos expoentes dos novos tempos: a ciência nascente não resulta de simples desenvolvimento, mas surge de uma ruptura, da adoção de uma nova linguagem, fruto, portanto, de uma revolução científica. 

Embora Galileu se referisse à "filosofia'' (esse saber universal), já começava aí o processo de separação entre ciência e reflexão filosófica. Método, em grego, significa "caminho''. E esse caminho Galileu encontra na união da experimentação com a matemática.

(ARANHA, Maria Lúcia de A. e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução a filosofia. 4. ed. São Paulo : Moderna, 2009. p. 365 )

Racionalismo II


Características do pensamento moderno

A partir do Renascimento, a religião, suporte do saber na Idade Média, sofreu diversos abalos com o questionamento da autoridade papal, o surgimento do protestantismo e a consequente destruição da unidade religiosa na Europa Ocidental. Decorrem daí as características desse novo momento histórico.

 Antropocentrismo: enquanto o pensamento medieval é predominantemente teocêntrico, o indivíduo moderno coloca a si próprio no centro dos interesses e decisões. Às certezas da fé, contrapõe-se a capacidade de livre exame. Até na religião os adeptos da Reforma defendem o acesso direto ao texto bíblico, dando a cada um o direito de interpretá-lo.

Racionalismo: ao critério da fé e da revelação, opõe-se o poder exclusivo da razão de discernir, distinguir e comparar; a atitude polêmica perante a tradição recusa o dogmatismo.

O saber ativo: em oposição ao saber contemplativo, o conhecimento não parte apenas de noções e princípios, mas da própria realidade observada e submetida a experimentações; como decorrência, o saber adquirido devido à aliança entre a ciência e a técnica deve voltar à realidade para transformá-la.

O método: a busca do método adequado marca o ponto de partida de vários pensadores do século XVII, como Descartes, Espinosa e Francis Bacon. O próprio Galileu, no mesmo século, teorizou sobre o método científico, o que representou uma verdadeira revolução: o rompimento da ciência com a filosofia aristotélico-escolástica, em busca de seu próprio caminho.

(ARANHA, Maria Lúcia de A. e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução a filosofia. 4. ed. São Paulo : Moderna, 2009. p. 365)

CRISE DA RAZÃO I

 

1. INTRODUÇÃO

O que é a razão? Quando o ser humano começou fazer uso desta faculdade?

RAZÃO - Destacaremos primeiro que tudo, vários significados do termo razão:

1. Chama-se razão a certa faculdade atribuída ao homem e por meio da qual foi distinguido dos restantes membros da série animal. Esta faculdade é definida usualmente como uma capacidade de atingir conhecimento do universal, ou do universal e necessário, de ascender até ao reino das ideias, quer seja como essências, quer seja como valores, ou ambos. Na definição “o homem é um animal racional” o ser racional é admitido como a diferença específica.

2. Entende-se a razão como equivalente ao fundamento; a razão explica então porque é que algo é como é e não de outro modo.

3. A razão define-se às vezes como um dizer. Com frequência se supõe que este _dizer (logos) se fundamenta num modo de ser racional.

2. DESENVOLVIMENTO

Tales, O primeiro filósofo.

A filosofia grega parece começar com uma idéia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque faz sem imagem e fabulação; e enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisálida, está contido o pensamento: "Tudo é um".

A razão citada em primeiro lugar deixa Tales ainda em comunidade com os religiosos e supersticiosos, a segunda o tira dessa sociedade e no-lo mostra como investigador da natureza, mas, em virtude da terceira, Tales se torna o primeiro filósofo grego- Se tivesse dito: "Da água provém a terra", teríamos apenas uma hipótese científica, falsa, mas dificilmente refutável. Mas ele foi além do científico. Ao expor essa representação de unidade através da hipótese da água, Tales não superou o estágio inferior das noções físicas da época, mas, no máximo, saltou por sobre ele.

As parcas e desordenadas observações da natureza empírica que Tales havia feito sobre a presença e as transformações da água ou, mais exatamente, do úmido, seriam o que menos permitiria ou mesmo aconselharia tão monstruosa generalização; o que o impeliu a esta foi um postulado metafísico, uma crença que tem sua origem em uma intuição mística e que encontramos em todos os filósofos, ao lado dos esforços sempre renovados para exprimi-Ia melhor - a proposição: "Tudo é um".

E notável a violência tirânica com que essa crença trata toda a empiria: exatamente em Tales se pode aprender como procedeu a filosofia, em todos os tempos, quando queria elevar-se a seu alvo magicamente atraente, transpondo as cercas da experiência.

NIETZSCHE, W. Friedrich. A filosofia na época trágica dos gregos.

Kierkegaard: razão e fé

Sören Kierkegaard (1813-1885), pensador dinamarquês, é um dos precursores do existencialismo contemporâneo. Dentre suas obras, destacamos Temor e tremor, O conceito de angústia, Migalhas filosóficas. Severo crítico da filosofia moderna, Kierkegaard afirma que desde Descartes até Hegel o ser humano não é visto como ser existente, mas como abstração - reduzido ao conhecimento objetivo - , quando na verdade a existência subjetiva, pela qual o indivíduo toma consciência de si, é irredutível ao

pensamento racional, e por isso mesmo possui valor filosófico fundamental.

A esse respeito, o professor Benedito Nunes completa: “Não se diga, porém que ela [a existência] é incognoscível. Ao contrário, dada a imediatidade, para o homem, entre ser e existir, o conhecimento que temos da existência é fundamental, prioritário. O homem se conhece a si mesmo como existente. Esse conhecimento, inseparável da experiência individual, não transforma a existência num objeto exterior ao sujeito que conhece.

Para Kierkegaard, a existência é permeada de contradições que a razão é incapaz de solucionar. Critica o sistema hegeliano por explicar o dinamismo da dialética por meio do conceito, quando deveria fazê-lo pela paixão, sem a qual o espírito não receberia o impulso para o salto qualitativo, entendido como decisão, ou seja, como ato de liberdade. Por isso é importante na filosofia de Kierkegaard a reflexão sobre a angústia que precede o ato livre.

A consciência das paixões leva o filósofo – e também teólogo - a meditar sobre a fé religiosa como estágio superior da vida espiritual. Para ele, a mais alta paixão humana é a fé. É ela que nos permite o "salto no escuro'' que é o "salto da fé". Mas ela é, também, uma paixão plena de paradoxos.

Como exemplo, o filósofo cita Abraão, personagem do Antigo Testamento que se dispõe a sacrificar o próprio filho para obedecer à ordem divina: não porque a compreendesse, mas porque tinha fé. O estágio religioso é para Kierkegaard o último de um caminho que o indivíduo pode percorrer na sua existência, sendo superior inclusive à dimensão puramente ética.

3. CONTEXTUALIZAÇÃO

A razão é a faculdade principal pela qual somos capazes de vivermos de forma organizada, pactuada, sem agirmos de forma egoísta e violenta. Porém nos últimos anos experimentamos uma volta a vida que de certa forma nega a razão. Como você percebe a nossa sociedade? racional ou passional?

4. ATIVIDADES

Produzir um texto sobre a Fé e a Razão. 30 linhas

Fazer uma pesquisa como algumas pessoas sobre suas vidas e o fator determinante se é a Razão ou a Paixão. Entregar na próxima aula.

 

(ARANHA, Maria Lúcia de A. e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução a filosofia. 4. ed. São Paulo : Moderna, 2009. p.)

LÓGICA

 

1. INTRODUÇÃO

Para Aristóteles, a lógica não é ciência e sim um instrumento (órganon) para o correto pensar.

O estudo da lógica serve para organizar as ideias de modo mais rigoroso, para que não nos enganemos em nossas conclusões. Vamos aqui examinar como surgiu a lógica na Antiguidade grega. Embora os sofistas e também Platão tenham se ocupado com questões lógicas, nenhum deles o fez com a amplitude e o rigor alcançados por Aristóteles (séc. IV a.C.). O próprio filósofo, porém, não denominou seu estudo de lógica, palavra que só apareceu mais tarde, talvez no século seguinte, com os estoicos.

ETIMOLOGIA

Lógica. Do grego logos, "palavra", "expressão", "pensamento", "conceito", "discurso", "razão".

2. DESENVOLVIMENTO

Silogismo

Silogismo nada mais é do que um argumento constituído de proposições das quais se infere (extrai) uma conclusão. Assim, não se trata de conferir valor de verdade ou falsidade às proposições (frases ou premissas dadas) nem à conclusão, mas apenas de observar a forma como foi constituído. É um raciocínio mediado que fornece o conhecimento de uma coisa a partir de outras coisas (buscando, pois, sua causa).

Termo e proposição

A proposição é um enunciado no qual afirmamos ou negamos um termo (um conceito) de outro. No exemplo "Todo cão é mamífero'' (Todo C é M), temos uma proposição em que o termo "mamífero'' afirma-se do termo "cão''.

Princípios da lógica

Para compreender as relações que se estabelecem entre as proposições, foram definidos os primeiros

princípios da lógica, assim chamados por serem anteriores a qualquer raciocínio e servirem de base a todos os argumentos. Por serem princípios, são de conhecimento imediato e, portanto, indemonstráveis.

Geralmente distinguem-se três princípios: o de identidade, o de não contradição e o do terceiro excluído.

Argumentação

A argumentação é um discurso em que encadeamos proposições para chegar a uma conclusão.

Exemplo: O mercúrio não é sólido. (premissa maior)

O mercúrio é um metal. (premissa menor)

Logo, algum metal não é sólido. (conclusão)

Estamos diante de uma argumentação composta por três proposições em que a última, a conclusão, deriva logicamente das duas anteriores, chamadas premissas.

Quadrado de oposições

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Com base na classificação das proposições segundo a quantidade e a qualidade, são possíveis diversas combinações, que podem ser visualizadas pelo chamado quadrado de oposições, diagrama que explícita as relações entre proposições contrárias, subcontrárias, contraditórias e subalternas.

Vamos identificar cada proposição com uma letra: A (gerais afirmativas), E (gerais negativas), I (particulares afirmativas) e O (particulares negativas). Para exemplificar, partimos da proposição geral afirmativa "Todo F é G":

Tipos de argumentação

Tradicionalmente dividimos os argumentos em dois tipos, os dedutivos e os indutivos, sendo que a

analogia constitui um tipo de indução.

Falácias

A falácia, ou paralogismo, é um tipo de raciocínio incorreto, apesar de ter a aparência de correção. É conhecida também como sofisma, embora alguns estudiosos façam urna distinção, pela qual o sofisma teria a intenção de enganar o interlocutor, diferentemente da falácia, que seria um engano involuntário.

A lógica pós-aristotélica

Até o século XIX, a lógica aristotélica não passou por mudança essencial, apesar de ter sofrido as mais diversas críticas. Hostil a Aristóteles, a filosofia na Idade Moderna procurou caminhos diferentes daqueles trilhados pelo filósofo grego e pelos medievais.

3. CONTEXTUALIZAÇÃO

A lógica faz parte do nosso cotidiano. Na família, no trabalho, no lazer, nos encontros entre amigos, na política, sempre que nos dispomos a conversar com as pessoas usamos argumentos para expor defender nossos pontos de vista. Os pais discutem com seus filhos adolescentes sobre o que podem ou não fazer, e estes rebatem com outros argumentos. Se assim é, tanto melhor que saibamos o que sustenta nossos raciocínios, o que os torna válidos e em que casos são incorretos.

4. ATIVIDADES

Leitura do livro o alienista de Machado de Assis

(ARANHA, Maria Lúcia de A. e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução a filosofia. 4. ed. São Paulo : Moderna, 2009. p. 130 )

VALORES

 

1. INTRODUÇÃO

VALOR—Trataremos do conceito de valor num sentido filosófico geral, como conceito capital na chamada teoria dos valores, e também axiológica e estimativa. Característico desta teoria é que não somente se usa o conceito de valor, mas que se procede a refletir sobre o mesmo e a determinar a natureza e caráter do valor e dos chamados juízos de valor. Isto distingue a teoria dos valores de um sistema qualquer de juízos de valor. Semelhantes sistemas são muito anteriores à teoria dos valores propriamente dita, visto que muitas doutrinas filosóficas, desde a antiguidade, contêm juízos de valor. Muito comum foi em certas doutrinas antigas equiparar o ser com o valor, e, mais especialmente, o ser verdadeiro com o valor (Platão). A equiparação do ser com o valor não é, todavia, uma teoria dos valores.

2. DESENVOLVIMENTO

Atribui-se aos valores as seguintes características:

1. O valer na classificação dada pela teoria dos objetos, há um grupo destes que não pode caracterizar-se pelo ser, como os objetos reais e os ideais. Destes objetos diz-se que valem e, portanto, que não têm ser, mas valer. A característica do valor é o ser valente, diferentemente do ser ente. A bondade, a beleza, a santidade, não são coisas reais, mas tão poucos entes ideais. Os valores são intemporais e por isso têm sido confundidos às vezes com as idealidades, mas a sua forma de realidade não é o ser ideal nem o ser real, mas o ser valioso. A realidade do valor é, portanto, o valer.

2. Objetividade: Os valores são objetivos, quer dizer, não dependem das preferências individuais, mantendo a sua forma de realidade para além de toda a e valorização. A teoria relativista dos valores sustenta que os atos de agrado e desagrado são o fundamento dos valores. A teoria absolutista sustenta, em contrapartida, que o valor é o fundamento de todos os atos. A primeira afirma que tem valor o desejável. A segunda sustenta que é desejável e valioso. Os relativistas desconhecem a forma peculiar e irredutível de realidade dos valores. Os absolutistas chegam nalguns casos à eliminação dos problemas que a relação efetiva entre os valores e a realidade humana e histórica põe. Os valores são, segundo alguns autores, objetivos e absolutos, mas não são hipóstases metafísicas das ideias do valioso. A objetividade do valor é apenas a indicação da sua autonomia em relação a qualquer estimação subjetiva e arbitrária. A região ontológica valor não é sistema de preferências subjetivas às quais se dá o título de “coisas preferíveis”, mas tão pouco é uma região metafísica de seres absolutamente transcendentes.

3. Não independência: Os valores não são independentes, mas esta dependência não deve ser entendida como uma subordinação do valor a instâncias alheias, mas como a necessária aderência do valor às coisas. Por isso os valores fazem sempre referência ao ser e são expressos como predicações do ser.

4. Polaridade: Os valores apresentam-se sempre polarmente, porque não são entidades diferentes como as outras realidades. Ao valor da beleza contrapões-se sempre o da fealdade; ao da bondade, o da maldade; ao do santo, o do profano.

5. Qualidade: os valores são totalmente independentes da quantidade e por isso não podem estabelecer-se relações quantitativas entre as coisas valiosas.

6. Hierarquia: O conjunto de valores é oferecido numa tabela geral ordenada hierarquicamente. Esta caracterização dos valores corresponde à axiologia final, que se limita a declarar as notas determinantes da realidade estimativa. A axiologia material, em compensação, estuda os problemas concretos do valor e dos valores e em particular as questões que afetam a relação entre os valores e a vida humana, assim como a efetiva hierarquia dos valores. Cada um destes problemas recebe soluções diferentes segundo a concepção subjetiva e objetivista dos valores, segundo os valores sejam concebidos como produtos da valoração ou como realidades absolutas.

A investigação das relações entre o valor e a concepção do mundo representa um dos problemas mais espinhosos da axiologia material, pois a sua solução depende, por sua vez, em parte, da concepção do mundo vigente ou sustentada pelo investigador.

3. CONTEXTUALIZAÇÃO

Em uma sociedade onde o valer e o valor são colocados em cheque a cada instante como termos valores que nos protege e ao mesmo tempo nos conduz a vida. Às vezes delegamos à religião a função de valorar (introduzir valores) a sociedade e esquecemos que as religiões também devem observar valores que estão além das estruturas religiosas.

4. ATIVIDADES

Produzir um dissertação em grupo sobre os valores e a criação de valores em um mundo marcado pela liquidez das coisas. (Ver: Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman) A partir deste artigo os alunos podem criar um tribunal onde irão julgar os valores da nossa sociedade.

MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. Lisboa, Dom Quixote: 1978.

RACIONALISMO I

 

Uma nova mentalidade

Em seu livro Pensamentos, Pascal diz o seguinte: O silêncio desses espaços infinitos me apavora. Essa frase explicita a angústia para quem, no século XVII, vivenciou a substituição da teoria geocêntrica - aceita durante mais de vinte séculos - pela teoria heliocêntrica. A nova teoria não apenas retirou a Terra do centro do Universo, mas também desintegrou uma construção estética que ordenava os espaços e hierarquizava o "mundo superior dos Céus" e o "mundo inferior e corruptível da Terra'. Galileu geometrizou o Universo, igualando todos os espaços. Ao descobrir a Via Láctea, contrapôs, a um mundo fechado e finito, a ideia da infinitude do Céu.


A questão, no entanto, não é apenas científica. Se fosse, Galileu não teria sido obrigado a retratar-se publicamente e abjurar sua teoria nem recolhido a prisão domiciliar. Há algo mais que se quebra, além da ordem cósmica, cujas causas antecedem a esse período. Examinando o contexto histórico em que ocorreram
transformações tão radicais, percebemos que elas não se desligavam de outros acontecimentos igualmente marcantes, que se configuravam desde o século anterior: surgimento da burguesia; desenvolvimento da economia capitalista;

Revolução Comercial; renascimento das artes, das letras e da filosofia. Desse modo, nasce um novo indivíduo, confiante na razão e no poder de transformar o mundo. Uma explicação possível para justificar a mudança ocorrida é que a nova classe comerciante, constituída pelos burgueses, impôs-se pela valorização do trabalho em oposição ao ócio da aristocracia.

Além disso, inventos como a bússola, o papel, a imprensa e a máquina a vapor, o aperfeiçoamento dos navios e as descobertas tornavam-se necessários para o comércio e a indústria em expansão. O renascimento das ciências no século XVII não constituiu uma simples evolução do pensamento científico, mas uma verdadeira ruptura que implicou outra concepção de saber, por conta da novidade do método instituído.

Observação: Existe um artigo de Hans Blumeberg que discute justamente a guinada moderna.

 

(ARANHA, Maria Lúcia de A. e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução a filosofia. 4. ed. São Paulo : Moderna, 2009. p.365)