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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Ideologia VI

 

Habermas: ciência e ideologia

Os filósofos de orientação marxista reinterpretaram o conceito de ideologia a partir das novas circunstâncias
da vida contemporânea. Entre eles, Jürgen Habermas relacionou ciência, técnica e ideologia para compreender como a consciência tecnocrática do mundo atual impõe-se em nome da economia e da eficiência. Na sociedade industrial avançada dos últimos cem anos é possível identificar o caráter ideológico
de decisões de administradores e especialistas, ainda quando elas são justificadas em termos técnicos aparentemente neutros e não ideológicos.
 

Habermas distingue o agir instrumental da ação comunicativa:


1. O agir instrumental diz respeito ao mundo do trabalho. Nesse setor, aprendemos a desenvolver habilidades baseadas em regras segundo o que Habermas chama de "agir racional-com-respeito-a-fins", ou seja, um saber empírico que visa a objetivos específicos e bem definidos, orientados para o sucesso e a eficácia da ação. Desse modo, na economia, o valor é o dinheiro na política, o poder; na técnica, a eficácia.


2. O agir comunicativo refere-se ao mundo da vida e baseia-se nas regras da sociabilidade. Nesse âmbito, as tarefas e habilidades repousam principalmente sobre as regras morais da interação. Pela comunicaçãolivre de dominação, as pessoas procuram chegar ao consenso, ao entendimento mútuo (diálogo), expressando sentimentos, expectativas, concordância e discordância e visando ao bem-estar de cada um. Trata-se do modo que deveria reger as relações em esferas como família, comunidades, organizações artísticas, científicas, culturais etc. Onde está o problema? O problema surge quando a racionalidade instrunental estende-se para outros domínios da vida pessoal nos quais deveria prevalecer a ação comunicativa. Assim explica Barbara Freitag:

A perversão ou patologia instaura-se quando, em lugar do entendimento, da argumentação, do respeito mútuo, os membros passam a agir instrumental ou estrategicamente, usando uns aos outros para fins técnicos, econômicos ou políticos. Seria o caso das famOias proletárias, denunciadas por Marx, que, por razões materiais, usam os filhos como inst rumentos· para aumentar a renda familiar. Há denúncias de casos no Terceiro Mundo, em que pais vendem seus filhos e filhas, com a finalidade do lucro, ou admitem e favorecem a prostituição de suas filhas e a exploração de seus filhos com fins financeiros. Outra forma de substituição da ação comunicativa pela instrumental é o caso de casais em que um usa o outro para avançar na carreira, sem que haja, fora esse objetivo instrumental, laços afetivos ou de entendimento entre os dois.
(FREITAG, Barbara.ltinerários de Antígona: a questão da moralidade. Campinas: Papirus, 1992. p. 240).

A intromissão da ação instrumental em outros domínios da vida empobrece a subjetividade humana e as relações afetivas. Não se avaliam as ações por serem justas ou injust as, mas se são eficazes; ou seja, os valores éticos e políticos são tratados do ponto de vista técnico, adequando-se aos fins propostos pelo sistema. As ações orientam-se pela competição, pelo individualismo, pela busca do rendimento. Desse modo, a ciência e a técnica  transformam-se em instrumento ideológico. A saída, porém, não está em recusar a ciência e a técnica, mas em recuperar o agir comunicativo naqueles espaços em que ele foi "colonizado" pelo agir instrumental. Do ponto de vista político isso significa que, para Habermas, a emancipação não mais depende da revolução, como propôs Marx, mas do aperfeiçoamento dos instrumentos de participação dentro da sociedade, respeitando-se o Estado de direito.

(ARANHA, Maria Lúcia de A. e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução a filosofia. 4. ed. São Paulo : Moderna, 2009. p.126-127)

Ideologia V

 

Outras concepções marxistas de ideologia

Nos escritos de Marx, o conceito de ideologia manteve o sentido negativo de conhecimento distorcido da realidade social. Como sua obra A ideologia alemã foi publicada postumamente e permaneceu por muito tempo desconhecida, pensadores marxistas posteriores, como Lênin - gestor da Revolução Russa de 1917 - , alargaram a abrangência do conceito.

A ideologia adquiriu um sentido positivo como conjunto de ideias elaboradas pelo proletariado e que expressam seus interesses, em contraposição à visão de mundo da classe dominante. É assim que Lênin refere-se à "ideologia comunista''.

Vejamos outros significados para o conceito.

1. Gramsci e a hegemonia


O filósofo italiano Antonio Gramsci (1891-1937) reelaborou o marxismo ao desenvolver conceitos que evitaram
a orientação mecanicista daqueles que percebiam a classe dominada como joguete das forças produtivas. Sem negar a dominação, fortaleceu a concepção de um proletariado atuante na luta para assumir seus próprios valores, estratégia para evitar a submissão.

Para Gramsci, em um primeiro moment o a ideologia tem a função positiva de atuar como cimento da estrutura social. Quando incorporada ao senso comum, ajuda a estabelecer o consenso, conferindo hegemonia a uma determinada classe, que passará a ser dominante. Com o consentimento da classe subalterna, forma um sistema orgânico articulado por uma cultura comum, difundida pelas instituições a que já nos referimos anteriormente.

Portanto, as ideologias são orgânicas e historicamente necessárias quando "organizam as massas humanas, formam o terreno sobre o qual os homens se movimentam, adquirem consciência de sua posição, lutam etc:·. Sob esse aspecto, a ideologia tem "o significado mais alto de uma concepção de mundo que se manifesta implicitamente na arte, no direito, na atividade econômica, em todas as manifestações de vida individuais e coletivas" e que tem por função conservar a unidade de todo bloco social.

Os conflitos posteriores entre burgueses e proletários exigem destes últimos a elaboração intelectual de seus próprios valores, uma vez que a ideologia vigente reflete os interesses da classe dominante, a burguesia. O proletariado precisa então de intelectuais orgânicos, assim chamados porque surgem "organicamente" a partir de suas próprias fileiras, contrapondo-se aos intelectuais tradicionais, a fim de constituírem coerentemente a concepção de mundo dos dominados. São esses intelectuais que dão ao proletariado "a consciência de sua missão histórica''. Nesse processo, Gramsci valoriza a atuação do partido, como organizador das massas.

(ARANHA, Maria Lúcia de A. e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução a filosofia. 4. ed. São Paulo : Moderna, 2009. p.125-126)

Ideologia IV

 

A ideologia em ação

Com base no exposto, vamos examinar alguns espaços em que a ideologia é veiculada e onde ela poderá ser mais facilmente identificada e criticada.

1. As histórias em quadrinhos

Os quadrinhos são um fenômeno característico da cultura de massa. Como expressão da produção cultural contemporânea, além da função de entretenimento e lazer, exercem a função mítica e fabuladora típica das obras de ficção, além de preencherem funções estéticas, representantes que são de um nova linguagem artística. Como toda produção cultural, os quadrinhos encerram ambiguidade: ao mesmo tempo que servem à consciência, podem servir à alienação; tanto levam ao conhecimento como à escamoteação da realidade; tanto podem ser criativos como alienantes.

No início da década de 1970, dois chilenos, Ariel Dorfman e Armand Mattelart, defenderam a tese de que a leitura das histórias em quadrinhos não era tão inocente como se pensava. Da impiedosa crítica aos quadrinhos não escaparam desde os super-heróis até os aparentemente inofensivos personagens  de Walt Disney. Esses autores denunciaram a ideologia subjacente aos quadrinhos, nos quais as histórias escamoteiam os conflitos, transmitem uma visão deformada do trabalho e levam à passividade política.

Para eles, na maioria dos enredos a sociedade aparece como una, estática e harmônica, e a "ordem natural" do mundo é quebrada apenas pelos vilões, que, encarnando o mal, atentam contra o patrimônio (roubo de bancos, joias e caixas-fortes). A defesa da legalidade, dada e não questionada, é feita pelos "bons", com a morte dos "maus" ou com a integração desses à norma estabelecida. Resulta daí um maniqueísmo simplista, que reduz todo conflito à luta entre o bem e o mal, sem considerar quaisquer nuanças de uma sociedade em que as pessoas e os grupos tenham opiniões e interesses divergentes.

No entanto, a crítica aos quadrinhos e a outras manifestações culturais de massa, como cinema, novelas e programas de televisão, não pode ser simplista. Há produções que, mesmo sem perder a Capa do livro de Hergé, Tintin au Canga, de 1970. dimensão de divertimento e prazer, propiciam uma crítica da sociedade e de nós mesmos. Um exemplo clássico dos quadrinhos é o da Mafalda, de Quino, pseudônimo do argentino Joaquim Salvador Lavado (1932). Com humor- às vezes ácido e corrosivo –, questiona os costumes, a política, o conformismo e os preconceitos.

Os amiguinhos da consciente e crítica Mafalda representam os estereótipos da alienação, do excessivo pragmatismo e do egocentrismo, enquanto outros são contestadores e criativos. Nos Estados Unidos, Charles M. Schulz (1922-2000) criou histórias que revelam as dificuldades do relacionamento humano, com os personagens Charlie Brown, menino de bom coração, mas tímido, desastrado e um pouco deprimido; Snoopy, o cão beagle capaz de filosofar sobre a vida e que age como um adulto bem-sucedido; Lucy, mandona, egoísta e sarcástica; Linus, inseguro, com seu inseparável cobertorzinho.

Bill Watterson, outro quadrinista norte-americano, ao criar a dupla Calvin e seu tigre Haroldo, critica o mundo adulto. Não por acaso o nome do menino rebelde Calvin foi inspirado em Calvino, líder religioso do século XVI que rompeu com a Igreja Católica. Na versão original o nome do tigre é Hobbes, menção explícita ao filósofo do século XVII que tinha uma visão pessimista da natureza humana. No Brasil, artistas como Angeli, Ziraldo, Glauco, os irmãos Caruso, Fernando Gonsales e Laerte, entre outros, seja em tiras ou em charges, aproveitam temas e situações do imaginário nacional para expressar o "pensar brasileiró' e também o questionar.


2. Publicidade e midia


É verdade que a publicidade, por meio de competentes agências e suas criativas campanhas, divulga a variedade e a qualidade do que é produzido pelo mercado. Desse modo, o consumidor toma conhecimento dos produtos e pode fazer escolhas. No entanto, como vivemos em uma época de consumismo, as pessoas
são levadas a comprar muito mais do que necessitam, pressionadas por desejos artificialmente estimulados.

A publicidade não vende apenas produtos, mas também ideias. Com o produto são veiculados valores que influenciam a vida no trabalho e nas relações afetivas: "compramos" o desejo de "subir na vida", estilos de vida e convicções políticas e éticas. Nas eleições, o perfil de candidatos a cargos públicos é feito pela divulgação de suas qualidades Não abra a boca e projetos. Sem dúvida é importante que o eleitor os conheça para melhor fazer sua escolha. O risco é o marketing político, de modo convincente, criar uma imagem falsa do candidato para conseguir adesões.

Outro espaço possível de ação ideológica são meios de comunicação de massa, como jornais, revistas, rádio, tevê, internet. Pela internet, dispomos, além da troca de mensagens entre particulares, da difusão de versões on-line de jornais e de páginas pessoais (blogs) das mais diversas tendências políticas. Diante de um fato, certos aspectos são ressaltados e outros são descartados como menos importantes. Trata-se de um procedimento necessário, se considerarmos o volume de notícias disponíveis.

Às vezes, porém, fatos que deveriam ser divulgados são intencionalmente ocultados dos cidadãos. Por exemplo, no tempo da ditadura no Brasil, sobretudo no governo do presidente Médici, prevalecia a censura e não eram noticiadas greves e manifestações contra o governo, muito menos as prisões arbitrárias e ações de tortura. É bem verdade que nenhum relato é totalmente neutro.

Não se trata de distorção voluntária por má-fé, mas da inevitável interpretação que sempre fazemos de qualquer evento. esse sentido, a imprensa é formadora de opinião, o que representa algo positivo, desde que, numa sociedade plural e democrática, tenhamos acesso a diversos veículos de informação, que nos permita comparar a diversidade de posicionamentos e construir uma opinião crítica.

Quase nunca isso acontece, pois as revistas e os jornais alternativos não alcançam a mesma difusão da grande mídia e não suportam a concorrência. As distorções são evidentes quando se avalia o desempenho de governantes ou de grupos da sociedade civil. Frequentemente a veiculação da notícia é contaminada por orientações políticas. Por exemplo: ao noticiar uma greve de professores ou de operários, manchetes como "Milhares de crianças sem aula" ou "Milhões de dólares de prejuízo" fornecem a chave interpretativa da notícia. Elas induzem o leitor a desaprovar a greve, sem examinar se as reivindicações dos grevistas são justas ou não.

A diferença entre a informação ideológica e a não ideológica é que a primeira veicula interesses de grupos restritos, transforma-se em instrumento de poder e impede o pluralismo.] á a informação não ideológica é aberta à discussão e oferece espaços para debates e opiniões divergentes. Se existe o risco da mídia comprometida com o poder estabelecido, bem sabemos como a atuação da imprensa foi e tem sido importante no combate ao desmando político e à corrupção. Existem os jornalistas e repórteres investigativos, que, além de relatar e comentar fatos, trazem à luz aspectos que não são veiculados, apesar de importantes para a compreensão das notícias.

(ARANHA, Maria Lúcia de A. e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução a filosofia. 4. ed. São Paulo : Moderna, 2009. p.120-121)

Ideologia III


Características da ideologia

É interessante observar que a ideologia não é urna mentira que a classe dominante inventa para subjugar a classe dominada, porque inclusive os que se beneficiam dos privilégios estão impregnados por ela, e também eles se convencem da verdade dessas ideias. Vamos então distinguir as características da ideologia.

a) Naturalização

A naturalização consiste em aceitar como naturais situações que na verdade resultam da ação humana e, como tais, são históricas. Por exemplo: afirmar que desde sempre existiram pobres e ricos, sendo impossível mudar esse estado de coisas. Assim diz o dramaturgo Bertolt Brecht na peça A exceção e a regra:
Nós vos pedimos com insistência:
Nunca digam -Isso é natural!
[ ... ]
A fim de que nada passe por ser imutável.
[ ... ]
Sob o familiar, descubram o josó ljto.
Sob o cotidiano, desvelem o inexp licável.
Que tudo que seja dito ser habitual,
Cause inquietação.
Na regra é preciso descobrir o abuso.
E sempre que o abuso for encontrado,
É preciso encontrar o remédio.2

b) Universalização


Outra característica da ideologia é a universalização, pela qual os valores da classe dominante são estendidos aos que a ela se submetem. É assim que a empregada doméstica "boazinha" não discute salário nem reclama se trabalha além do horário. Também os missionários que acompanhavam os colonizadores às terras conquistadas certamente não percebiam o caráter ideológico da sua ação ao imporem sua religião e moral ao povo dominado.

c) Abstração e aparecer social

A universalidade das ideias e dos valores resulta de uma abstração, ou seja, as representações ideológicas não se referem ao concreto, mas ao aparecer social. A sociedade "una e harmônica'' é portanto uma abstração, porque, ao analisarmos concretamente as relações sociais, descobrimos a divisão em classes e os conflitos de interesses. Por exemplo, é difícil contestar que "o trabalho dignifica''. É verdade, bem sabemos que o trabalho é condição de nossa humanização, mas essa afirmação é ideológica quando consideramos apenas a ideia de trabalho, independentemente da análise da situação concreta e histórico social em que de fato é realizado. Nesse caso, o que descobrimos pode ser exatamente o contrário: o trabalho como embrutecimento e condição de reificação ( coisificação) do ser humano. Basta saber que no tempo de Marx as indústrias inglesas contratavam trabalhadores para uma jornada extensa, sem direito a férias, auxílio para doença ou invalidez nem aposentadoria, além de arregimentarem crianças e mulheres como mão de obra mais barata. O rico se banqueteia enquanto os trabalhadores lutam (1923), afresco de José Clemente Orozco (1883-1947). Orozco participou do grupo dos muralistas mexicanos, com David Alfaro Siqueiros e Diego Rivera. O tema constante de seus trabalhos é a luta do povo e o ideal da revolução socialista.

d) Lacuna


A universalização e a abstração supõem uma lacuna ou a ocultação de algo que não pode ser explicitado, sob pena de desmascarar a ideologia. Por isso ela é ilusória, não no sentido de ser "falsa" ou "errada", mas por ser uma aparência que oculta a maneira pela qual a realidade social foi produzida. Sob o aparecer da ideologia existe a realidade concreta, que precisa ser descoberta pela análise da gênese do processo.

Ao dizer que "o salário paga o trabalho", podemos identificar uma lacuna quando, analisando a gênese do trabalho assalariado, descobrimos a mais-valia. Esse artifício, do qual deriva a exploração do trabalhador e sua alienação, oculta condições de vida diferentes para as pessoas na sociedade.

e) Inversão

A ideologia representa a realidade invertida, ou seja, o que seria a origem da realidade é posto como produto
e vice-versa: o que é efeito é tomado como causa. Exemplificando: segundo a ideologia burguesa, a desigualdade social resulta de diferenças individuais: os indivíduos são desiguais por natureza, e a desigualdade social é, portanto, inevitável. Para Marx, contudo, a divisão social do trabalho e das relações de produção é, de fato, a causa da desigualdade social. Se o filho do operário não melhora o padrão de vida, a explicação ideológica atribui o insucesso à incompetência, falta de força de vontade ou indisciplina. É verdade que não se pode desprezar as diferenças entre os indivíduos, mas pelo enfoque ideológico o sucesso depende apenas da competência pessoal, sem levar em conta as dificuldades decorrentes da divisão de classes. É como se imaginássemos uma corrida em que alguns começam bem na frente dos outros apenas
porque nasceram em berço privilegiado. Outra inversão própria da ideologia decorre da hierarquia entre o pensar e o agir, que instaura a dicotomia entre o trabalho intelectual e o manual. Sob esse esquema, uma classe "sabe pensar", enquanto a outra "não sabe pensar" e, portanto, só executa o que lhe mandam fazer.

(ARANHA, Maria Lúcia de A. e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução a filosofia. 4. ed. São Paulo : Moderna, 2009. p.120-121)

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Filosofia


TEMA: O QUE É FILOSOFIA

1. INTRODUÇÃO

Quem é o filósofo? É alguém que pratica a filosofia, em outras palavras, que se serve da razão para tentar pensar o mundo e sua própria vida, a fim de se aproximar da sabedoria ou da felicidade. E isso se aprende na escola? Tem de ser aprendido, já que ninguém nasce filósofo e já que a filosofia é, antes de mais nada, um trabalho. Tanto melhor, se ele começar na escola. O importante é começar, e não parar mais. Nunca é cedo demais nem tarde demais para filosofar, dizia Epicuro [ ... ]. Digamos que só é tarde demais quando já não é possível pensar de modo algum. Pode acontecer. Mais um motivo para filosofar sem mais tardar.
   
 2. QUESTIONAMENTO/DESENVOLVIMENTO
    
 Nesse ponto, cabe a pergunta: afinal, só pensa e reflete quem filosofa? É claro que não, já que você pensa quando resolve uma equação matemática, reflete criticamente ao estudar história geral, pensa antes de decidir sobre o que fazer no fim de semana, pensa quando escreve um poema. Então, que tipo de "pensar" é esse, do filósofo? Não é melhor nem superior a todos os outros, mas sim diferente, porque se propõe a "pensar nossos pensamentos e ações". Dessa atitude resulta o que chamamos experiência filosófica. Ao criar ou explicitar conceitos, os filósofos delimitam os problemas que os intrigam e buscam o sentido desses pensamentos e ações, para não aceitarem certezas e soluções fáceis demais. Se olharmos com atenção esta tira do cartunista argentino Quino, constatamos que Mafalda faz uma interrogação filosófica sobre o sentido da existência, mas seu amigo Felipe quer se livrar o mais rapidamente dessa questão, ou seja, recusa-se a essa forma de pensar.

3. CONTEXTUALIZAÇÃO

Antonio Gramsci diz:

“não se pode pensar em nenhum homem que não seja também filósofo, que não pense, precisamente porque o pensar é próprio do homem como tal.”
· Filosofia de vida – Todos os dias nos deparamos como questões que nos fazem questionar a razão das coisas e sempre emitimos um juízo.
· Função da filosofia –  Qual é a função da filosofia? Como vou utilizar a filosofia na vida? Geralmente em um mundo pragmático  é possível perceber a função original da filosofia? Sempre utilizamos produtos do conhecimento humano, mas nem sempre nos perguntamos: qual foi o processo inicial de tudo isto? onde está sua origem? A filosofia nos leva a repensar nossas atitudes, a rever nossas práticas, coisas que geralmente passa despercebido. A filosofia é muito utilizada pelas religiões, pela elite tanto financeira como intelectual, pois ela é instrumento para conhecer e conhecimento é poder.
· Por isso mesmo, a filosofia pode ser "perigosa", por exemplo, quando desestabiliza o status quo  ao se confrontar com o poder. É o que afirma o historiador da filosofia François Châtelet:
“Desde que há Estado - da cidade grega às burocracias contemporâneas - , a ideia de verdade sempre se voltou, finalmente, para o lado dos poderes [ ... ]. Por conseguinte, a contribuição específica da filosofia que se coloca a serviço da liberdade, de todas as liberdades,é a de minar, pelas análises que ela opera e pelas ações que desencadeia, as instituições repressivas e simplificadoras: quer se trate da ciência, do ensino, da tradução, da pesquisa, da medicina, da família, da polícia, do fato carcerário, dos sistemas burocráticos, o que importa é fazer aparecer a máscara, deslocá-la, arrancá-la ...”

4. ATIVIDADES

· Quais são suas inquietações com relação a tudo que existe no mundo, as pessoas, sua vida?
· Produzir um texto com o seguinte tema: A IMPORTÂNCIA DO ATO DE PERGUNTAR. 30 linhas














Ideologia II


Ideologia: sentido restrito (Aula 2 )

O termo ideologia foi criado no século XIX por Destutt de Tracy, filósofo e político francês, para designar uma "ciência das ideias". Com ela o autor pretendia compreender a formação das ideias numa sociedade por meio de um método semelhante ao das ciências da natureza. Seus seguidores foram chamados ideólogos por Napoleão Bonaparte, dando ao termo uma conotação pejorativa, já que rejeitava as posições políticas daquele grupo. Consultar o capítulo 6, "Trabalho, alienação e consumo".

Conceito marxista de ideologia


Para compreendermos o conceito marxista de ideologia, é preciso rever o que é alienação. Para Marx, a alienação manifesta-se na vida do operário quando o produto do seu trabalho deixa de lhe pertencer. Ao vender a sua força de trabalho, não mais decide sobre o salário, o horário e o ritmo de trabalho; e por ser comandado de fora, perde o centro de si mesmo, tornando-se "alheio'', "estranho" a si próprio, portanto alienado. Esse estado de coisas é típico de sociedades divididas em classes, em que predomina a separação entre o trabalho manual e o intelectual, nas quais os trabalhadores perdem a autonomia e se sujeitam à exploração. Por que o operário não reage a essa situação? Marx explica que a ideologia impede a tomada de consciência da alienação. Assim, a coesão social é mantida sem o recurso à violência física. Embora o conceito de ideologia já estivesse subentendido em suas primeiras obras, Marx introduziu o termo pela primeira vez em A ideologia alemã, na qual critica os filósofos hegelianos, cujas reflexões partiam de ideias. De acordo com sua concepção materialista da história, deve-se iniciar pelo exame do modo de produção capitalista para só então analisar como são produzidas as ideias nessa realidade concreta. Em que consiste portanto a ideologia segundo Marx? Ideologia é o conjunto de representações e ideias, bem como de normas de conduta, por meio das quais o indivíduo é levado a pensar, sentir e agir da maneira que convém à classe que detém o poder. Essa consciência da realidade torna-se uma distorção dela quando camufla os conflitos existentes no seio da sociedade, ao apresentá-la una e harmônica, como se todos os indivíduos partilhassem dos mesmos interesses e ideais.
Portanto, a ideologia:
  1. constitui um corpo sistemático de representações que nos "ensinam" a pensar e de normas que nos "ensinam" a agir;
  2. determina a relação entre os indivíduos e as condições de existência deles, adaptando-os às tarefas prefixadas pela sociedade;
  3. camufla as diferenças de classe e os conflitos sociais, ora concebendo a sociedade como "una e harmônica", ora justificando as diferenças existentes;
  4. garante a coesão social e a aceitação sem criticas das tarefas mais penosas e pouco recompensadoras, em nome da "vontade de Deus", do "dever moral" ou simplesmente como decorrência da "ordem natural das coisas";
  5. mantém a dominação de urna classe sobre outra.
     (ARANHA, Maria Lúcia de A. e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução a filosofia. 4. ed. São Paulo : Moderna, 2009. p.120-121)

Ideologia


Sobre ideologia (Aula-1   3ª unidade)
O que é ideologia?
Como a ideologia determina o coportamento das pessoas?
Quais são as caracerísticas da ideologia?
Conceito geral de ideologia

Você já prestou atenção na letrada canção Ideologia, de Cazuza e Roberto Frejat? Diante de uma vida sem
sentido,
um jovem assiste a tudo "em cima do muro'' e sequer conhece bem a si mesmo. Lamenta ter perdido o sonho de mudar o mundo e por isso, no refrão, brada por uma ideologia: "Eu quero uma pra viver!". O que transparece nesse apelo é o desejo de valorizar sua vida com significados outros que não dependam de modismos e concepções alheias. Para tanto, ele precisa pensar por si mesmo e adquirir autonomia de ação. Esse exemplo nos dá o sentido mais geral e positivo do conceito de ideologia, como conjunto de ideias, crenças ou opiniões sobre algum ponto sujeito a discussão. Falamos então da ideologia de um pensador, do corpo sistemático de suas ideias, do seu posicionamento interpretativo diante de certos fatos. É assim que distinguimos ideologia liberal de ideologia socialista, as duas principais visões políticas, sociais e econômicas do nosso tempo. Esse sentido de ideologia também serve para designar a teoria pedagógica que orienta a prática de uma escola ou a ideologia de uma religião que determina as regras de conduta dos fiéis. Quando lemos um livro podemos perceber aspectos da ideologia nele subjacente e que denota a visão de mundo de seu autor. E assim por diante.
(ARANHA, Maria Lúcia de A. e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução a filosofia. 4. ed. São Paulo : Moderna, 2009. p.120)