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sábado, 27 de abril de 2013



LÁ VEM O SANTO
CARREGANDO A IMAGEM
LÁ VAI A IMAGEM
DA PRÓPRIA CRIAÇÃO.

PERNAS QUEBRADAS
BRAÇOS ESMAGADOS
SUOR, LAGRIMAS
SORRISO, DOR.

VÊ! É O SANTO
DE JOELHOS NO CHÃO
NEGANDO SUAS PERNAS
AFIRMANDO A EMOÇÃO.

BENDITO! BENDITO!
GRITA A ROUCA VOZ
BENDITO NOSSO SANTO
CARREGADO PELAS MÃOS.

CAPELAS ABRAM AS PORTAS
BARES, CABARÉS FECHEM AS PORTAS
CIDADES PAREM!
LA VEM O SANTO.

MISTURA DE SENTIMENTOS
DESPREZO! PAIXÃO!
CIDADES DIVIDIDAS
E VÁRIAS RELIGIÃO.

LÁ VEM O SANTO
SEM CARRO
SEM MOTO
LÁ VEM OS SANTO A PÉ.

OS PÉS DO SANTO?
PISA EM VÁRIOS CHÃOS
PRESO NO ANDOR
ANDA COM OS PÉS NAS MÃOS.

HOMENS NEGUEM-SE
MULHERES NEGUEM-SE
O SANTO NEGA-SE
PARA AFIRMAR A PROCISSÃO.


QUIRINO – INVERNO DE 2007




HOMO RELIGIOSUS

O que é a religião? Qual é função da religião na sociedade atual? Será a religião um manto sagrado sobre a qual todos nós buscamos abrigo? Ou como podemos observar nos escrito sagrado de todas as religiões aquele quem não pronunciamos o nome presenteou a humanidade com um dossel? O primeiro aspecto que podemos observar é que a religião nasce da carência humana de preencher a brecha existencial que cada um carrega em si.

Como podemos definir religião? Durante séculos a religião se tornou objeto de estudo. Não nos deteremos aqui em um grupo especificamente, mas abordaremos de forma geral o aspecto religioso do homem. Segundo Durkheim, religião é uma instituição dotada de ritual e doutrina, onde se distingue o sagrado do profano e onde existe a igreja como unidade social integradora e integrante. Outros teóricos definirão religião como fenômeno, Mauss, define religião como um produto de concentração social e se mantem as custas do gregarismo periódico.

Para Mircea Eliade o sentimento de sacralidade presente no homem do passado permanece ainda hoje. Daí o conceito do homem como um Homo Religiosus. Há um sentimento de sagrado no humano que permeia a sua existência. Mesmo os profanos carregam dentro de si uma fé quase que inquestionável. O homem cria para si locais sagrados e cria realidades paralelas a esta realidade em que existimos de forma  que o mesmo homem que é um santo no local delimitado como sagrado é um profano fora.

A religião aparece para o homem como um lugar, um espaço e um tempo capaz de conferir sentido a sua vazia existência. A criação do sistema de crença é fundamental para a manutenção da religião. Porém, o sistema de crença é algo irracional? Desprovido de uma metodologia?  Se assim o fosse não existiria uma religião. A religião deve ser concebida como uma obra de arte, uma das mais bem elaboradas pela humanidade e extremamente racional.

O desafio é o sujeito de fé criar a religião. O início de século XXI está marcado pela secularização da sociedade ocidental e pela tentativa de sobrevivência de grupos religiosos que há século tinha em suas mãos a hegemonia da crença. A religião deve ser proselitista? Ou sua função é acolher o crente em seu seio.  O humano que busca o sagrado é o humano em busca de uma identidade sacra.

Assim se a religião é proselitista, coercitiva, agarrada em suas próprias estruturas, e inibe o crente de viver sua fé de forma espontânea esta religião nega a razão de sua própria existência. Não é a religião que faz o homem, mas o homem é quem constrói, faz a religião.

 Quirino do R  Santos
Filósofo



TEMA: O QUE É FILOSOFIA

1.     INTRODUÇÃO

Quem é o filósofo? Sendo objetivo, é  alguém que pratica a filosofia, em outras palavras, que se serve da razão para tentar pensar o mundo e sua própria vida, a fim de se aproximar da sabedoria ou da felicidade.Ou como disse Pitágoras é um amante do saber. E isso se aprende na escola? Tem de ser aprendido, já que ninguém nasce filósofo e já que a filosofia é, antes de mais nada, um trabalho. Tanto melhor, se ele começar na escola. O importante é começar, e não parar mais. Nunca é cedo demais nem tarde demais para filosofar, dizia Epicuro [ ... ]. Digamos que só é tarde demais quando já não é possível pensar de modo algum. Pode acontecer. Mais um motivo para filosofar sem mais tardar.

2.     QUESTIONAMENTO/DESENVOLVIMENTO
 
Nesse ponto, cabe a pergunta: afinal, só pensa e reflete quem filosofa? É claro que não, já que você pensa quando resolve uma equação matemática, reflete criticamente ao estudar história geral, pensa antes de decidir sobre o que fazer no fim de semana, pensa quando escreve um poema. Então, que tipo de "pensar" é esse, do filósofo? Não é melhor nem superior a todos os outros, mas sim diferente, porque se propõe a "pensar nossos pensamentos e ações". Dessa atitude resulta o que chamamos experiência filosófica. Ao criar ou explicitar conceitos, os filósofos delimitam os problemas que os intrigam e buscam o sentido desses pensamentos e ações, para não aceitarem certezas e soluções fáceis demais. Se olharmos com atenção esta tira do cartunista argentino Quino, constatamos que Mafalda faz uma interrogação filosófica sobre o sentido da existência, mas seu amigo Felipe quer se livrar o mais rapidamente dessa questão, ou seja, recusa-se a essa forma de pensar.


3.     CONTEXTUALIZAÇÃO

Antonio Gramsci diz:
“não se pode pensar em nenhum homem que não seja também filósofo, que não pense, precisamente porque o pensar é próprio do homem como tal.”

·         Filosofia de vida – Todos os dias nos deparamos como questões que nos fazem questionar a razão das coisas e sempre emitimos um juízo.
·         Função da filosofia –  Qual é a função da filosofia? Como vou utilizar a filosofia na vida? Geralmente em um mundo pragmático  é possível perceber a função original da filosofia? Sempre utilizamos produtos do conhecimento humano, mas nem sempre nos perguntamos: qual foi o processo inicial de tudo isto? onde está sua origem? A filosofia nos leva a repensar nossas atitudes, a rever nossas práticas, coisas que geralmente passa despercebido. A filosofia é muito utilizada pelas religiões, pela elite tanto financeira como intelectual, pois ela é instrumento para conhecer e conhecimento é poder.
·         Por isso mesmo, a filosofia pode ser "perigosa", por exemplo, quando desestabiliza o status quo  ao se confrontar com o poder. É o que afirma o historiador da filosofia François Châtelet:

 “Desde que há Estado - da cidade grega às burocracias contemporâneas - , a ideia de verdade sempre se voltou, finalmente, para o lado dos poderes [ ... ]. Por conseguinte, a contribuição específica da filosofia que se coloca a serviço da liberdade, de todas as liberdades,é a de minar, pelas análises que ela opera e pelas ações que desencadeia, as instituições repressivas e simplificadoras: quer se trate da ciência, do ensino, da tradução, da pesquisa, da medicina, da família, da polícia, do fato carcerário, dos sistemas burocráticos, o que importa é fazer aparecer a máscara, deslocá-la, arrancá-la ...”


4.     ATIVIDADES
·         Quais são suas inquietações com relação a tudo que existe no mundo, as pessoas, sua vida?
·         Produzir um texto com o seguinte tema: A IMPORTÂNCIA DO ATO DE PERGUNTAR.  30 linhas



Prof. Quirino do R Santos
Filósofo



quarta-feira, 10 de abril de 2013

5ª SEMANA SOCIAL BRASILEIRA


BRASIL!!    UM ESTADO PARA QUE E PARA QUEM?  ( TEXTO I - CONCEITOS)

0 ESTADO

Conjunto organizado das instituições políticas, jurídicas, policiais, administrativas, econômicas etc., sob um governo autônomo e ocupando um território próprio e independente. E diferente de governar (conjunto das pessoas às quais a sociedade civil delega, direta ou indiretamente, o poder de dirigir o Estado); diferente ainda da sociedade civil (conjunto dos homens ou cidadãos vivendo numa certa sociedade e sob leis comuns); diferente também da nação (conjunto dos homens que possuem um passado e um futuro comuns, entre outras nações), o Estado constitui a emanação da sociedade civil e representa a nação.

(JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor. 2001)

 REPÚBLICA: 

 Na moderna tipologia das formas de Estado, o termo  República  se  contrapõe  à  monarquia. Nesta, o chefe  do  Estado  tem  acesso  ao supremo  poder  por  direito  hereditário;  naquela,  o chefe do Estado, que pode ser uma só pessoa ou um colégio de várias pessoas  (Suíça), é eleito pelo povo, quer direta, quer indiretamente (através de assembleias primárias ou  assembleias  representativas). Contudo, o significado do  termo  República  evolve  e  muda profundamente  com  o  tempo  (a  censura  ocorre  na época  da  revolução  democrática),  adquirindo conotações diversas, conforme o contexto conceptual em que se insere.
Como res publica os romanos definiram a nova forma de organização do poder  após  a  exclusão dos  reis. É uma palavra nova para  exprimir  um  conceito  que  corresponde,  na cultura  grega,  a  uma  das muitas  acepções  do  termo politeia, acepção que se afasta totalmente da antiga e tradicional  tipologia  das  formas  de  Governo.  Com efeito, res publica quer pôr em relevo a coisa pública, a coisa  do  povo,  o  bem  comum,  a  comunidade, enquanto  que,  quem  fala  de monarquia,  aristocracia, democracia,  realça  o  princípio  do  Governo  (archia).

(BOBBIO, Norberto. Dicionário de política.  Brasília, Unb, 1998)

DEMOCRACIA:

I.  NA  TEORIA  DA  DEMOCRACIA  CONFLUEM  TRÊS TRADIÇÕES HISTÓRICAS. — Na teoria contemporânea da Democracia  confluem  três  grandes  tradições  do pensamento  político:  a)  a  teoria  clássica,  divulgada como  teoria  aristotélica,  das  três  formas  de Governo, segundo a qual a Democracia, como Governo do povo, de  todos  os  cidadãos,  ou  seja,  de  todos  aqueles  que gozam  dos  direitos  de  cidadania,  se  distingue  da monarquia, como Governo de um só, e da aristocracia, como  Governo  de  poucos;  b)  a  teoria  medieval,  de origem  "romana,  apoiada  na  soberania  popular,  na base  da  qual  há  a  contraposição  de  uma  concepção ascendente a uma concepção descendente da soberania conforme o poder  supremo deriva do povo  e  se  torna representativo ou deriva do príncipe e se transmite por delegação  do  superior  para  o  inferior;  c)  a  teoria moderna,  conhecida  como  teoria  de  Maquiavel, nascida com o Estado moderno na  forma das grandes monarquias,  segundo  a  qual  as  formas  históricas  de Governo  são  essencialmente  duas:  a  monarquia  e  a república, e a antiga Democracia nada mais é que uma forma de  república  (a outra  é  a  aristocracia), onde  se origina o  intercâmbio  característico  do  período  pré-revolucionário  entre  ideais  democráticos  e  ideais republicanos  e  o  Governo  genuinamente  popular  é chamado,  em  vez  de  Democracia,  de  república.  O problema  da Democracia,  das  suas  características,  de sua  importância  ou  desimportância  é,  como  se  vê, antigo. Tão antigo quanto a reflexão sobre as coisas da política, tendo sido reproposto e reformulado em todas as  épocas.  De  tal  maneira  isto  é  verdade,  que  um exame do debate contemporâneo em torno do conceito e do valor da Democracia não pode prescindir de uma referência, ainda que rápida, à tradição.

(BOBBIO, Norberto. Dicionário de política.  Brasília, Unb, 1998)

Quirino do R Santos
Filósofo
Professor do CES


Sobre Novos Cenários Modernos I

A cada dia que passa percebemos que o mundo moderno está se transformando em um espaço de contradições. Acreditávamos que  o século XXI seria um século de evolução em que homem emancipado e movido por uma razão menos instrumental pudesse alcançar lugares novos capaz de plenificar todos para uma humanização sadia e realizável.
Porém, quando paramos para analisar  temos um homem movido por paixões, e não só por paixões, mas as piores paixões. Intolerância, instrumentalização da religião, legitimação da corrupção, alienação de sua própria condição, inversão de valores, destruição da esperança e uma apatia quanto a luta e a conquista de novos direitos.
A intolerância revela que apesar de estarmos cercados de informações, recursos tecnológicos, não fomos capazes de absorver um valor fundamental para a vida em sociedade: o respeito. E olha que a intolerância está partindo de lugares e pessoas que possui em sua mão  o poder. São lideres religiosos, políticos da esfera federal, pessoas que formam opinião que antes de abrir a boca deveria pensar.
A religião quase sempre foi utilizada como forma de legitimar a dominação de quem está no poder, as religiões quase sempre se aliaram ao poder para levar a cabo a sua proposta originária. Porém quando a religião se alia a um poder corrupto, quando uma religião se omite diante das mortes de tantos jovens, da injustiça social, da tragédia anunciada diante da não reforma agrária, quando a religião se omite diante da morte, a religião nega a sua vocação a ser um sinal da amorosidade de Deus pela humanidade.
A Legitimação da corrupção nos dias atuais é favorecido não só pelo povo que erroneamente vota em pessoas que não deveria ocupar cargos públicos, mas por instituições da república que deveria guardar e defender as leis e isto não a fazem. A compreensão de REPÚBLICA, DEMOCRACIA, ESTADO nunca foi tão usurpado e erroneamente utilizado como nos dias atuais.
(...) 



Quirino do Rosario Santos
Filósofo
Professor do CES

sexta-feira, 5 de abril de 2013

CULTURA, GESTÃO PÚBLICA, PROVINCIALISMO

O que é cultura? Segundo Tylor¹ cultura é: “aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade”  compreender cultura como algo onde se resume em certas festas, e eventos de alguns grupos é um equívoco, senão um erro de apreensão do próprio conceito.
Cada povo tem seu sistema de crença, sua arte, suas leis, seus costume e hábitos. Inferir que o outro está errado, por causa da sua cultura além de ignorância pode significar um crime. Especificamente no Brasil o conceito de cultura durante muito tempo, e ainda está anexado a eventos e atividades que muitas vezes serve apenas para beneficiar um grupo da elite que nada mais faz que lucre com um bem que é do povo. Por exemplo, Eike compra 50% dos direitos sobre o rock in rio.
A medida que vamos tecendo um reflexão sobre a cultura no Brasil, na Bahia, nós nos percebemos distante, quantas vezes nos pegamos curtindo um artista de um outro país e esquecemos do nosso vizinho que é um artista nato. A Bahia é um estado alienado. Isto é, falando da própria casa. A medida que aproximamos a lente chegamos em nosso território de identidade, então se a coisa era complexa, agora se torna uma missão impossível. A cultura é fruto da vida e forma de viver de um povo, se não concebermos assim estamos apenas instrumentalizando aquilo que é vital para as pessoas.
Toda a cultura necessita ser sistematizada, articulada para que possa de fato exercer sua função enquanto tal, o problema da cultura é a ingerência política. A maioria dos gestores, e aqui quando falo de gestores estou falado de todo o complexo político de gestão, isto é, prefeitos, vereadores, secretários, diretores que ainda vêem a cultura como festas ações de “ajuda” a algum grupo. Toda ação momentânea, deve ser vista como paliativa. E quem é responsável por criar ações duradouras e de logo prazo?
A máquina pública é um “monstro”, porém, um monstro que deve ser domesticado. O problema é que o gestor político chega um momento que ele se confunde com a máquina e as ações que foram propostas para serem criadas em favor de ações concretas ficam no caminho e o próprio gestor passa a defender a maquina em vez do cidadão. Olhando para a nossa realidade de Brasil podemos perceber o quanto avançamos no aspecto cultural e isto se deu por uma soma de ações entre gestores federais/estaduais/municipais apesar da cabeça provinciana da maioria que infelizmente não consegue ver além do próprio nariz.
Sistematizar a cultura significa colocar o conceito em evidência, no seu devido lugar para que possa estar de fato servindo ao artista e ao povo. Quais são então as funções dos sistemas de cultura? A principal é conceber a cultura como uma necessidade vital ao ser humano. O artista já dizia: “Agente não quer só comida, agente quer bebida, diversão e arte...” Todo ser humano deve ter acesso ao teatro, circo, cinema, música etc. A criação dos sistemas de cultura é o primeiro passo para uma sistematização, segundo o conselho de cultura que é uma entidade fundamental nesta construção – sobre os conselhos vale resaltar à função do conselho na esfera federal/estadual/municipal – nas discussões de políticas culturais.
O desafio para uma gerência da cultura de forma participativa é que muitos de nossos gestores ainda estão viciados nos velhos hábitos. Além do mais outro passo fundamental para uma gerência equitativa é o plano de cultura que estabelece por dez anos as ações e investimentos na cultura. A PEC 48/2005 publicada no diário oficial da união no dia 11/08/2005 estabelece o plano nacional de cultura com suas específicas funções. E o recurso para gerir a cultura de onde deve sair? A PEC 150/2003 que está tramitando no congresso até hoje desde 2003 já estabelece o fundo de cultura: 2% da união, 1,5% estado e 1% município. Além, claro, da iniciativa privada.
Ampliar a visão da concepção de cultura e da gestão da cultura é sem dúvida sair do provincialismo que somos constantemente levados a ter/ser. A cultura deve ser entendida como prioridade, assim como devemos ter saúde de qualidade, educação de qualidade.  Em pesquisa realizada pela ocasião da conferência municipal da juventude em Serrolândia no ano de 2011 70% da juventude acredita que o caminho para diminuir a criminalidade é o investimento em cultura.
Desta forma podemos chegar à algumas conclusões sobre cultura, gestão e provincialismo. Primeiro, cultura é tudo aquilo que construímos e vivemos, segundo, a gestão deve ser cada vez mais descentralizada, participativa e terceiro nós devemos sair do etnocentrismo para uma visão globalizada e interligada das manifestações culturais.














Quirino do Rosario Santos
Professor de Filosofia/CES
Diretor de Cultura




1. TYLOR, Edward(1871). Primitive Culture. Londres, John Murray & Co. 1958, Nova York, Harper Torchbooks. Cap 1, p 1.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013


A Terceira Margem do Rio
Guimarães Rosa

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.

Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.

No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.

Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o 'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.

A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.

Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.

Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.

Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.

Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.

Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.

Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

Texto extraído do livro "Primeiras Estórias", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 32, cuja compra e leitura recomendamos.
Tudo sobre o autor e sua obra em "
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