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sábado, 10 de junho de 2017

CULTURA, GESTÃO PÚBLICA, PROVINCIALISMO

O que é cultura? Segundo *Tylor cultura é: “aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade”  compreender cultura como algo onde se resume em certas festas, e eventos de alguns grupos é um equívoco, senão um erro de apreensão do próprio conceito.
Cada povo tem seu sistema de crença, sua arte, suas leis, seus costume e hábitos. Inferir que o outro está errado, por causa da sua cultura além de ignorância pode significar um crime. Especificamente no Brasil o conceito de cultura durante muito tempo, e ainda está anexado a eventos e atividades que muitas vezes serve apenas para beneficiar um grupo da elite que nada mais faz que lucre com um bem que é do povo. Por exemplo, Eike compra 50% dos direitos sobre o rock in rio.
A medida que vamos tecendo um reflexão sobre a cultura no Brasil, na Bahia, nós nos percebemos distante, quantas vezes nos pegamos curtindo um artista de um outro país e esquecemos do nosso vizinho que é um artista nato. A Bahia é um estado alienado. Isto é, falando da própria casa. A medida que aproximamos a lente chegamos em nosso território de identidade, então se a coisa era complexa, agora se torna uma missão impossível. A cultura é fruto da vida e forma de viver de um povo, se não concebermos assim estamos apenas instrumentalizando aquilo que é vital para as pessoas.
Toda a cultura necessita ser sistematizada, articulada para que possa de fato exercer sua função enquanto tal, o problema da cultura é a ingerência política. A maioria dos gestores, e aqui quando falo de gestores estou falado de todo o complexo político de gestão, isto é, prefeitos, vereadores, secretários, diretores que ainda vêem a cultura como festas ações de “ajuda” a algum grupo. Toda ação momentânea, deve ser vista como paliativa. E quem é responsável por criar ações duradouras e de logo prazo?
A máquina pública é um “monstro”, porém, um monstro que deve ser domesticado. O problema é que o gestor político chega um momento que ele se confunde com a máquina e as ações que foram propostas para serem criadas em favor de ações concretas ficam no caminho e o próprio gestor passa a defender a maquina em vez do cidadão. Olhando para a nossa realidade de Brasil podemos perceber o quanto avançamos no aspecto cultural e isto se deu por uma soma de ações entre gestores federais/estaduais/municipais apesar da cabeça provinciana da maioria que infelizmente não consegue ver além do próprio nariz.
Sistematizar a cultura significa colocar o conceito em evidência, no seu devido lugar para que possa estar de fato servindo ao artista e ao povo. Quais são então as funções dos sistemas de cultura? A principal é conceber a cultura como uma necessidade vital ao ser humano. O artista já dizia: “Agente não quer só comida, agente quer bebida, diversão e arte…” Todo ser humano deve ter acesso ao teatro, circo, cinema, música etc. A criação dos sistemas de cultura é o primeiro passo para uma sistematização, segundo o conselho de cultura que é uma entidade fundamental nesta construção – sobre os conselhos vale resaltar à função do conselho na esfera federal/estadual/municipal – nas discussões de políticas culturais.
O desafio para uma gerência da cultura de forma participativa é que muitos de nossos gestores ainda estão viciados nos velhos hábitos. Além do mais outro passo fundamental para uma gerência equitativa é o plano de cultura que estabelece por dez anos as ações e investimentos na cultura. A PEC 48/2005 publicada no diário oficial da união no dia 11/08/2005 estabelece o plano nacional de cultura com suas específicas funções. E o recurso para gerir a cultura de onde deve sair? A PEC 150/2003 que está tramitando no congresso até hoje desde 2003 já estabelece o fundo de cultura: 2% da união, 1,5% estado e 1% município. Além, claro, da iniciativa privada.
Ampliar a visão da concepção de cultura e da gestão da cultura é sem dúvida sair do provincialismo que somos constantemente levados a ter/ser. A cultura deve ser entendida como prioridade, assim como devemos ter saúde de qualidade, educação de qualidade.  Em pesquisa realizada pela ocasião da conferência municipal da juventude em Serrolândia no ano de 2011 70% da juventude acredita que o caminho para diminuir a criminalidade é o investimento em cultura.
Desta forma podemos chegar à algumas conclusões sobre cultura, gestão e provincialismo. Primeiro, cultura é tudo aquilo que construímos e vivemos, segundo, a gestão deve ser cada vez mais descentralizada, participativa e terceiro nós devemos sair do etnocentrismo para uma visão globalizada e interligada das manifestações culturais.

* TYLOR, Edward(1871). Primitive Culture. Londres, John Murray & Co. 1958, Nova York, Harper Torchbooks. Cap 1, p 1.

"O BRAZIL NÃO MERECE O BRASIL/O BRAZIL TA MATANDO O BRASIL"

Ao longo da minha vida viajei e conheci boa parte deste país e conheci muitos brasileiros honrados e honestos, homens e mulheres que vivem na zona rural, nas periferias das grandes cidades, cidades do interior do país que nos enchem de orgulho, porque vivem de forma digna, conquista as coisa com suor e trabalho. Este Brasil é um Brasil feito de pessoas que constrói a duras penas suas vidas e esta nação. Neste quesito podemos afirmar que este Brazil que as oligarquias de nosso pais defendem não é o Brasil que a maioria de sua nação acredita e vive.

O Brasil de dona Josefa e dona Maria, de seu José, de seu João é um Brasil que oferece farinha, feijão, arroz, carne, as mais variadas arvores frutíferas e os mais diversos tipos de alimentos. No Brasil podemos escolher o que queremos comer a cada dia sem repetirmos o alimento, mas isto só mostra que este país é maravilhoso. E como diz a música este Brazil (USA), não merece o Brasil. O Brazil da nossa burguesia é um Brasil colonia, dependente do capital estrangeiro, dependente da cultura estrangeira, da aprovação estrangeira, da comida estrangeira é um Brasil sucateado, onde o Brasileiro não passa de um matuto, jeca que não sabe nem administrar suas vidas.

O nosso povo mais do que nunca precisa despertar para perceber que o Brazil mata o Brasil. Mas esta consciência não aparece de forma voluntaria. Se assim fosse estaria realizado, pois na sala de aula discutimos sobre tudo isto. No entanto nosso fracasso é evidente, pois nossos alunos absorve tudo que a ideologia do Brazil lhe apresenta. E cada dia a mídia tenta inculcar nas pessoas que esta nação não presta e por esta razão as pessoas devem venerar e buscar admirar as nações "desenvolvidas", síndrome de vira lata que tenta colocar na alma dos brasileiro.

"O BRAZIL NÃO MERECE O BRASIL/O BRAZIL TA MATANDO O BRASIL"

O falso sentimento de patriotismo não pode levar as pessoas a agirem como se fossem fantoches manipulados por quaisquer ideologia, ainda mais de quem esta no poder. Será que as cores de nossa bandeira nos representa de fato? Nem sempre quem usa uma camisa verde amarela está defendendo a maioria da nação brasileira.

" O Brazil não conhece o Brasil/O Brasil nunca foi ao Brazil"

Há muito tempo já dizia os compositores Maurício Tapajós e Aldir Blanc (1978), em QUERELAS DO BRASIL, interpretado pela nossa querida Elis Regina que o "Brazil não conhece o Brasil, o Brasil nunca foi ao Brazil e esta premissa nunca foi tão real como nos dias de hoje. O que pensar de um país que se orgulha de suas classes e divisões? Nunca pediu perdão aos negros que foram escravizados? Nunca reconheceu o agricultor como o grande transformador desta sociedade? Como admirar uma elite que se prostituem com as grandes potencias do mundo?

A burguesia brasileira vende o Brasil ao estrangeiro e entrega os brasileiros como escravo. por que lutar por um país que tem orgulho de ser colonia?  O Brasil é um país assentado na classe que domina e nos dominados o problema é que quem está no meio termo, alimenta quem domina com a falsa crença que também é dominador ou seja, a nossa classe média nada mais é que um pobre que pensa que é rico.

Vivemos em uma época em que a nossa juventude se perdeu, jovens que defendem valores cada vez mais ridículos, anciãos corruptos que se orgulham de capturar consciências ignorantes e este é um circulo infinito. Na política temos aquilo que chamamos de oportunidade de limpeza, não haverá mudança na politica se continuarmos com as mesmas pessoas que hoje ocupam o poder ou já ocuparam. 

O caminho não é refundar, mas criar uma nova sociedade, com novos parâmetros.A burguesia que sempre dominou este país nunca pensou o país com duzentos milhões de habitantes, como também nunca pensou o país para todos. O caminho é a criação de uma sociedade a partir de criação de novas estruturas para exercer o poder. É preciso encontrar pessoas que pensam de forma equilibrada e que queira pensar o Brasil como um país que possuem características específicas.

Há uma juventude ávida por poder e estão prontas para seguir as ideias mais absurdas possíveis, primeiro porque é uma juventude que não ampliam seu leque de conhecimento, mas o campo de visão funcionam em uma unica direção. Segundo porque nós que somos educadores não conseguimos conduzir para um caminho da consciência crítica. Outra parcela da sociedade está presas as estruturas ortodoxas e rígidas e se apegam a religiões e costumes cada vez  mais intolerantes e que não suportam a diversidade.

A nossa distância da política nos leva a posição que não há saída para o Brasil. Achamos que temos que manter quem sempre esteve no poder ou quem inciou a pouco tempo. É preciso criar novos políticos, e quando utilizamos o verbo criar, estamos dizendo isto de forma consciente até porque político é criado a partir do desejo do povo.

NOVA MANEIRA E FORMA DE VIVER NO MUNDO
......

FILOSOFIA



TEMA: O QUE É FILOSOFIA
      1.     INTRODUÇÃO
Quem é o filósofo? É alguém que pratica a filosofia, em outras palavras, que se serve da razão para tentar pensar o mundo e sua própria vida, a fim de se aproximar da sabedoria ou da felicidade. E isso se aprende na escola? Tem de ser aprendido, já que ninguém nasce filósofo e já que a filosofia é, antes de mais nada, um trabalho. Tanto melhor, se ele começar na escola. O importante é começar, e não parar mais. Nunca é cedo demais nem tarde demais para filosofar, dizia Epicuro [ ... ]. Digamos que só é tarde demais quando já não é possível pensar de modo algum. Pode acontecer. Mais um motivo para filosofar sem mais tardar.
    2.     QUESTIONAMENTO/DESENVOLVIMENTO
     
      Nesse ponto, cabe a pergunta: afinal, só pensa e reflete quem filosofa? É claro que não, já que você pensa quando resolve uma equação matemática, reflete criticamente ao estudar história geral, pensa antes de decidir sobre o que fazer no fim de semana, pensa quando escreve um poema. Então, que tipo de "pensar" é esse, do filósofo? Não é melhor nem superior a todos os outros, mas sim diferente, porque se propõe a "pensar nossos pensamentos e ações". Dessa atitude resulta o que chamamos experiência filosófica. Ao criar ou explicitar conceitos, os filósofos delimitam os problemas que os intrigam e buscam o sentido desses pensamentos e ações, para não aceitarem certezas e soluções fáceis demais. Se olharmos com atenção esta tira do cartunista argentino Quino, constatamos que Mafalda faz uma interrogação filosófica sobre o sentido da existência, mas seu amigo Felipe quer se livrar o mais rapidamente dessa questão, ou seja, recusa-se a essa forma de pensar.
      
          3.  CONTEXTUALIZAÇÃO

Antonio Gramsci diz:
“não se pode pensar em nenhum homem que não seja também filósofo, que não pense, precisamente porque o pensar é próprio do homem como tal.”


   Filosofia de vida – Todos os dias nos deparamos como questões que nos fazem questionar a razão das coisas e sempre emitimos um juízo.

  Função da filosofia –  Qual é a função da filosofia? Como vou utilizar a filosofia na vida? Geralmente em um mundo pragmático  é possível perceber a função original da filosofia? Sempre utilizamos produtos do conhecimento humano, mas nem sempre nos perguntamos: qual foi o processo inicial de tudo isto? onde está sua origem? A filosofia nos leva a repensar nossas atitudes, a rever nossas práticas, coisas que geralmente passa despercebido. A filosofia é muito utilizada pelas religiões, pela elite tanto financeira como intelectual, pois ela é instrumento para conhecer e conhecimento é poder.

  Por isso mesmo, a filosofia pode ser "perigosa", por exemplo, quando desestabiliza o status quo  ao se confrontar com o poder. É o que afirma o historiador da filosofia François Châtelet:
 “Desde que há Estado - da cidade grega às burocracias contemporâneas - , a ideia de verdade sempre se voltou, finalmente, para o lado dos poderes [ ... ]. Por conseguinte, a contribuição específica da filosofia que se coloca a serviço da liberdade, de todas as liberdades,é a de minar, pelas análises que ela opera e pelas ações que desencadeia, as instituições repressivas e simplificadoras: quer se trate da ciência, do ensino, da tradução, da pesquisa, da medicina, da família, da polícia, do fato carcerário, dos sistemas burocráticos, o que importa é fazer aparecer a máscara, deslocá-la, arrancá-la ...  

4. ATIVIDADES
Quais são suas inquietações com relação a tudo que existe no mundo, as pessoas, sua vida?
 Produzir um texto com o seguinte tema: A IMPORTÂNCIA DO ATO DE PERGUNTAR.  30 linhas

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Estética II - A arte grega e o conceito de naturalismo


O naturalismo constitui uma noção fundamental que marcou profundamente grande parte da arte ocidental, da antiga Grécia até o final do século XIX, com uma única interrupção, durante a Idade Média.

• Conceito de naturalismo

O naturalismo, segundo Harold Osborne, pode ser definido como a ambição de colocar diante do observador uma semelhança convincente das aparências reais das coisas. A admiração pela obra de arte, nessa perspectiva, advém da habilidade do artista em fazer a obra parecer ser o que não é, parecer ser a realidade e não a representação. Na atitude naturalista, podemos distinguir algumas variações, dentre as quais as mais importantes são o realismo e o idealismo.

O realismo mostra o mundo como ele é, nem melhor nem pior. É característico, por exemplo, da arte renascentista do século XV. Já o idealismo retrata o mundo nas suas condições mais favoráveis. Na verdade, mostra o mundo como desejaríamos que fosse, melhorando e aperfeiçoando o real. É o padrão da arte grega, que não retrata pessoas reais, mas pessoas idealizadas. Foram os gregos que elaboraram a teoria das proporções do corpo humano usadas para qualquer representação, em pintura ou escultura, qualquer que fosse a realidade do modelo.

O rosto, por exemplo, era dividido em três partes de igual tamanho: um terço seria ocupado pela testa, um terço pelos olhos e nariz, e o terço restante, pela boca e pelo queixo. O naturalismo foi uma atitude dominante na arte ocidental por muitos séculos, com exceção, como veremos, do período medieval. Com o movimento impressionista, no século XIX, houve outra ruptura com essa atitude, pois os artistas passaram a dar primazia às variações da luz e não aos objetos representados.

Essa mudança de atitude se deve, em parte, ao aparecimento do "bisavõ' da máquina fotográficao daguerreótipo-, que fixa as imagens do mundo de forma mais rápida, econômica e precisa do que a tela pintada. Por essa razão, os artistas, principalmente os pintores, tiveram de repensar a função da arte e o espaço específico da pintura.

O naturalismo na arte grega

Na Grécia Antiga não havia a ideia de artista no sentido que hoje empregamos, uma vez que a arte estava integrada à vida. As obras de arte dessa época eram utensílios (vasos, ânforas, copos), edificações (templos) ou instrumentos educacionais. O artífice que os produzia era considerado um trabalhador manual, do mesmo nível do agricultor ou do ferramenteiro. Ele era um artesão, tinha domínio da~. numa sociedade que considerava o trabalho manual indigno.

Platão (séc. V a.C.) recusa-se a dar valor autônomo ao que chamamos de arte. Para ele, existe uma ordem metafísica e ética no mundo, sendo tarefa da filosofia descobri-la por meio do pensamento racional. A arte só poderia ter valor se representasse corretamente essa ordem ou nos ajudasse a agir de acordo com ela. Contudo, Platão reconhece o poder da poesia sobre a alma humana e dá indícios de que aprecia os prazeres que ela proporciona. 

Com relação à beleza, termo que ele usa com muitos sentidos diferentes, entre eles desejabilidade, valor de troca e agradabilidade à visão e à audição, ela não está relacionada às artes. Platão critica, inclusive, os sofistas e os retóricos por não saberem fazer a distinção entre o que é belo porque dá prazer, do que é genuinamente bom e benéfico. Para ele, a beleza em si é uma forma, acessível somente ao intelecto.

Platão faz a crítica da beleza no mundo sensível, dizendo que é variável (algo pode ser belo em um momento e não em outro), e é relativa (algo é belo em relação a algum aspecto mas não a outros; é belo para um observador e não o é para outro). Do outro lado, a beleza como forma não é variável - "sempre é: não se torna, nem acaba, não brilha, nem desvanece" (Symposium 21Ia). Nesse período (sécs. V e IV a.C.), a função da arte era criar imagens de coisas reais, que tivessem aparência de realidade. Para que esse objetivo fosse atingido, foram desenvolvidas técnicas que permitiam produzir cópias da aparência visível das coisas.

Há várias anedotas que ilustram bem isso, embora poucos exemplares da pintura grega tenham chegado até nós. Dizem que Apeles pintou um cavalo com tanto realismo que cavalos vivos relinchavam ao vê-lo. Outra história conta que Parrásio pintou uvas tão reais que passarinhos tentavam bicá-las. Na verdade, talvez essas pinturas só possam ser consideradas realistas em relação à estilização da pintura que a precedeu ou à pintura egípcia, por exemplo. Por outro lado, temos de admirar a fidelidade anatômica das esculturas gregas, tais como a Vitória de Samotrácia e o Discóbulo. 

Essa atitude perante a arte está fundada sobre o conceito de mímese. Para Platão, a mímese seria a imitação não da ideia (essência universal) da coisa, mas tão somente de sua aparência, isto é, de um objeto concreto e particular. Além disso, só se pode imitar algo a partir de um ponto de vista, não de todos, fazendo com que a imitação não seja exata, mas parcial. Portanto, ela está longe da verdade. No polo oposto, Aristóteles afirma que a mírnese é natural para as pessoas desde a infância, por ser um modo de aprendizado.

A mímese resulta em conhecimento porque copia corretamente o objeto e o simplifica. No que diz respeito à tragédia, ela é a mírnese de uma ação, de um acontecimento, e não das paixões. É um processo ativo de seleção de partes para apresentação. Não é passivo, cópia automática, como supunha Platão. Aristóteles traz de volta a necessidade da habilidade para se fazer poesia: o poeta é um compositor-criador de tramas, e não de versos.

Embora a poesia não seja rnímese do universal, Aristóteles sustenta que, mesmo que os objetos da mímese não sejam universais, eles podem resultar em um processo que apresente universais, porque a tragédia não trata de assuntos banais. Entretanto, é no sentido de cópia ou reprodução exata e fiel da realidade que a palavra mímese passa a ser adotada pela teoria naturalista. E as obras de arte, nessa perspectiva, são avaliadas segundo o padrão de correção estabelecido por Platão:

Mímese. Do grego, mímesis, normalmente traduzida por"imitação", significava muito mais que isso para os gregos. Para Platão, as palavras "imitam a realidade". Nesse caso, a tradução mais correta para mímese talvez fosse "representar", e não "imitar". Para Aristóteles, a arte "imita" a natureza. Arte, para ele, no entanto, englobava todos os ofícios manuais, indo da agricultura ao que hoje chamamos de belas-artes. Por isso, a arte, enquanto poiésis, ou seja, "construção", "criação a partir do nada", "passagem do não ser ao ser", imita a natureza no ato de criar, e não a aparência das coisas.

Discóbolo, cópia romana em mármore do original feito pelo ateniense Miron, por volta de 450 a.C. Essa escultura é urna representação idealizada do esportista no momento de maior concentração, quando se prepara para arremessar o disco. A harmonia da composição é dada pela intersecção de dois segmentos da linha curva. Um se i.nicia na mão que segura o disco, passa pelos ombros, desce pelo outro braço e chega ao pé esquerdo que está atrás. O outro liga esse mesmo pé à cabeça, passando pela curvatura das costas. Apesar da concentração do corpo, o rosto permanece tranqui.lo. Isso faz parte do idealismo da arte naturalista grega.

Agora suponhamos que, neste caso, o homem também não soubesse o que eram os vários corpos representados. Ser-lhe-ia possível ajuizar da justeza da obra do artista? Poderia ele, por exemplo, dizer se ela mostra os membros do corpo em seu número verdadeiro e natural e em suas situações reais, dispostos de tal forma em relação uns aos outros que reproduzam o agrupamento natural - para não falarmos na cor e na forma - ou se tudo isso está confuso na representação?

(ARANHA, Maria Lúcia de A. e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução a filosofia. 4. ed. São Paulo : Moderna, 2009. p. 438-439)

Isto é arte?


O conceito de belo, como já discutimos, é eminentemente histórico. Cada época e cada cultura têm seu padrão de beleza próprio. Na contemporaneidade, exemplificada pela obra de Leda Catunda, é comum a incorporação do cotidiano, do efêmero e dos valores difundidos pelos meios de comunicação de massa ao universo da arte. Neste trabalho, o cotidiano nos é dado pelo material sobre o qual a pintura foi feita: o cobertor com estampa de onça é a realidade concreta, compartilhada pelo observador/público.

E, se o material causa estranheza, mais espantados ficamos ao perceber que é o fundo pintado com tinta acrílica que dá forma à imagem da onça. A figura, salvo poucas manchas preenchidas com tinta colorida, permaneceintocada, deixando entrever o tecido peludo do cobertor cuja padronagem (de pele de onça) sugeriu seu aproveitamento para essa obra de arte. O procedimento de vedação do fundo faz com que a figura salte aos olhos e "às mãos", uma vez que a maciez e a fofura próprias do cobertor apelam ao nosso sentido táctil. Ao inverter o procedimento tradicional de pintar a figura, dando menor importância ao fundo, a artista estabelece um diálogo irônico com a história da arte.

O fundo, em vários tons de verde com algumas pinceladas amarelas, nos faz pensar em floresta, mata, o hábitat natural das onças-pintadas, que só são encontradas na América Latina. A onça, entretanto, apesar da feição feroz com os dentes arreganhados e as longas garras, não está em posição que nos dê a ideia de vida. Ao contrário, as pernas esticadas em direção aos quatro ângulos do cobertor lembram os animais transformados em tapetes, exibidos como troféus por caçadores e outros consumidores desse tipo de souvenir.

Assim transformados, esses animais não oferecem mais perigo. Deixam de ser selvagens, donos das selvas, temidos, para entrar nas casas e serem literalmente pisados. A onça-pintada é uma imagem, comum no imaginário popular brasileiro, da qual a artista se apropriou para criar sua obra, colocando em questão as relações entre a realidade e a representação (presente na brincadeira entre a onça-pintada existente na natureza e a onça pintada por ela); entre o registro popular (do cobertor e da imagem da onça-pintada) e o erudito (da arte); entre o selvagem e amedrontador (a onça viva) e a pacificação da morte, do extermínio.

Cruzando essa imagem de 1984 com as preocupações ambientalistas do mundo no século XXI, podemos fazer outra leitura dessa obra: a onça é um animal em extinção e sua representação como "tapete" pode levantar uma série de questões sobre a ação do ser humano na natureza; a necessidade de preservação das espécies para se manter a riqueza biológica do planeta e do país; o futuro da humanidade; a ideia de "dominar a naturezà' como condição do progresso etc.

Assim como o restante da obra de Leda Catunda desse período, Onça pintada I coloca algumas questões sobre o que é arte: trata-se de uma brincadeira ou de um projeto poético sério? O artista precisa criar suas obras ou pode se apoderar de imagens e objetos já prontos, para desconstruí-los? A arte deve ter uma função crítica? Uma pintura deve sempre seguir a tradição e usar materiais convencionais, como a tela, o chassi sobre o qual ela é esticada, ou a madeira? Será que, em outras épocas, Onça pintada I seria considerada uma obra de arte? Para ajudar você a responder essas perguntas, vamos examinar as várias correntes estéticas que vieram a determinar não só as relações entre arte e realidade, porém, mais importante ainda, o estatuto e a função da obra de arte.

(ARANHA, Maria Lúcia de A. e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução a filosofia. 4. ed. São Paulo : Moderna, 2009. p. 437)